Por Stephanie Ribeiro do BLACKGIRLMAGIC

Estava circulando nas minhas redes sociais e me deparei com uma matéria sobre a atriz Tais Araujo. Comecei a ler e vi que nos comentários havia uma série de elogios a ela, mas também pessoas a chamando de “metida”, “prepotente” etc. Algumas dessas “opiniões” enfatizavam o fato de ela ter se negado a comer um nhoque de abóbora num programa de TV, como justificativa para conclusões sobre sua personalidade. Um NÃO dito com muita educação e respeito seria realmente um motivo para entendermos que ela é arrogante? Quantas vezes ao dia dizemos NÃO? Ou quantas vezes deixamos de comer algo simplesmente por não gostar do sabor?

Eu, por exemplo, não suporto bife de fígado – e realmente não tenho a mínima vontade de comer ou me sinto culpada por isso. Acho absurdo quem tenta me forçar a comer dizendo: “Se você estivesse passando fome, aposto que comeria”. Bom, se eu estivesse passando fome, significa que estaria numa condição subhumana de não acesso a dignidade, em que seria impedida de fazer escolhas, já que estaria lutando pela sobrevivência. Então, que bom que não estou passando fome, não é mesmo? Afinal, a possibilidade de fazer escolhas mostra que, mesmo dentro dos marcadores sociais de raça e gênero, consigo exercer minha subjetividade e individualidade. Sou uma pessoa! E é muito bom destacar que sou uma PESSOA e posso fazer escolhas sobre mim. Isso deveria ser uma possibilidade de todos, pois isso nos humaniza!

Fiquei com todos esses comentários rondando meus pensamentos. Eu poderia (ou talvez gostaria de) acreditar que esse é um fato isolado. Entretanto, dias depois, estava procurando uma foto de um look usado no programa e me deparei com comentários críticos, semelhantes aos mencionados, em uma imagem de Tais Araujo no Instagram do GNT. Realmente espero que isso não afete Taís. Afinal, o que são cinco comentários desse escopo perto dos mais de 4 milhões de fãs do reconhecido trabalho dessa mulher, hoje uma das atrizes mais influentes do Brasil.

Comentários agressivos feitos a atriz Tais Araujo (Foto: Reprodução)

Pensando nesses comentários agressivos e racistas que desconsideram totalmente o DIREITO a escolha da Tais, lembrei de quando eu era mais jovem e assistia nas noites de domingo o programa Fantástico com meu avô. Mesmo ele sendo negro, se incomodava muito com a figura da jornalista Gloria Maria. Ele ficava repetindo frases como: “Essa preta tá cada vez mais metida”. Não compreendia o uso que meu avô fazia desses termos, até que eu, no decorrer da vida, virei a tal “preta metida, arrogante, esnobe, prepotente, chata, sem humildade”…  Sim, um dia por não corresponder às expectativas BAIXAS que as pessoas tinham sobre mim, ganhei todos esses elogios. Se para minha mãe, sou um exemplo, pois ela deu a vida para eu chegar até aqui, para os demais, sou a exceção que não compreendem e muitos não aceitam.

“Ahhh você mudou”
“Ahhhh agora tá famosinha”

Só falta acrescentar: “Sua Americanahhhhhhhhhhhhhh” (numa referência ao livro de Chimamanda Ngozi Adichie, um dos mais impactantes que li em 2015, e que retrata um processo parecido)… Realmente, mudei o cabelo, mudei algumas formas de pensar, mudei, principalmente, a maneira como muitas vezes me mantinha em silêncio, acreditando que era o que me fazia bem. O que me tornou “metida” foi a quebra desse silêncio, foram minhas palavras ganhando formas que deram a minha dignidade e identidade usurpada num contexto de opressão de gênero e raça sistêmica. Fez parte desse processo ecoar e ler as vozes de mulheres negras como a caribenha-americana Audre Lorde:

Quais são as palavras que você ainda não tem? O que você precisa dizer? Quais são as tiranias que você aceita cotidianamente e quase as incorpora, até que você adoeça e morra por causa delas ainda em silêncio? (…)
É claro que eu tenho medo, porque a transformação do silêncio em linguagem e ação é um ato de auto-revelação, o que sempre parece carregado de perigo. Mas, minha filha, quando eu contei a ela sobre nosso tema e minha dificuldade com ele, me disse: ‘Diga a elas sobre como você nunca é uma pessoa realmente inteira se permanecer em silêncio, porque há sempre um pequeno pedaço em você que quer ser dito e, se você continuar ignorando-o, ele fica cada vez mais louco, cada vez mais quente, e se você não o falar, um dia ele irá simplesmente se levantar e dar um soco na sua boca pelo lado de dentro’.

No mesmo texto, A Transformação do Silêncio em Linguagem e Ação, Audre Lorde descreve uma das frases que se tornaria icônica para muitas mulheres negras – e, talvez, um  resumo de seus ensinamentos mais importantes:

Meus silêncios não tinham me protegido. Tampouco protegerá a vocês.

Enquanto cobrarem nosso silêncio nomeando de pseudo humildade, não estaremos protegidas.

Comigo, a cobrança para “baixar a bola” começou quando passei a me interessar pelos estudos: então, eu era “estranha”. Lembro como, dentro da minha própria casa e família, minha mãe abraçou brigas reais para respeitarem minha individualidade, não compreendida por todos ao meu redor. Em famílias pobres, ter uma pessoa que se interessa por arte e livros nem sempre é compreendido, já que grande parte da minha família tem o básico — ou menos que o básico dos estudos. Mesmo parentes tiveram a coragem de dizer que eu não deveria fazer arquitetura porque não era para mim. Mas o que é para mim, então?

Muitas das vezes que emiti minha opinião, recebi como resposta que eu estava fazendo aquilo porque eu era “arrogante”. Para ser taxada de arrogante, bastava começar uma frase com “não concordo“. Antes que alguém me questione sobre qual tom estou usando para escrever, gostaria de saber qual o tom você interpreta esse texto? Eu estou calma, escrevendo enquanto ouço música. Sinto-me bem e queria poder estar falando isso para perceberem que meu tom de voz não é de ironia nem de raiva. Contudo, o poder do meu NÃO, a negativa, o “não gosto”, o “não aceito”, ainda está sendo domado por mim, ao mesmo tempo em que eu, somente eu, estou aprendendo a definir o que é ou não para mim.

Fui educada para dizer SIM. O NÃO nunca fez parte do que me ensinaram a dizer como mulher. Tampouco fui educada para saber o poder que um NÃO me dá. Tem um peso enorme na cultura de nosso País um NÃOdito por mulheres, já que somos condicionadas a aceitar tudo que escolhem para e por nós. Não dizer não faz a gente se desdobrar para tentar corresponder às necessidades e aos pedidos alheios, nos colocando em segundo plano. Mas existem muitas mulheres que não concordam em estar no segundo plano e querem ser as protagonistas – e quando nos destacamos, geramos ódio em muitas pessoas, mesmo naquelas que dizem nos amar.

O ódio daquilo que não entendem e não controlam.

 

No meu caso, não sou só uma mulher: sou uma mulher negra. Muita gente diz que enfatizar isso é “mimimi“, mesmo num País onde a cada cem pessoas assassinadas, 71 são negras – segundo dados do Atlas da Violência do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Tenho mais do que o direito de me sentir vítima. Eu sou a vítima. Enquanto se incomodarem mais com o tamanho do meu ego do que com o tamanho da desigualdade que estamos vivendo, terei de lembrar que sou a vítima junto a outros negros. Pessoas que podem não estar em caixões, mas já enterraram vários. Posso não estar presa, mas sei que um tio está. Posso não estar morta, mas sei que um primo se foi. Posso não estar na miséria, mas não garanto que minha família não esteja. Pois nem sempre uma única pessoa que quebra o ciclo da pobreza estrutural consegue levar consigo os demais. Nos falta ainda PODER de fato. Então, por que me chamam de arrogante, se minha família continua sendo estatística?

Por que me empurram para um abismo, se eu quero agora puxar os meus para um ponto seguro?
Por que desejam me parar com suas palavras agressivas?
Por que minha alegria te ofende mais que a miséria dos meus semelhantes?
Uma humildade que se baseia em me controlar socialmente, esquecendo todo o poder e a luta que me fez chegar até onde eu cheguei, me serve para que?
Uma humildade mal interpretada, que julga que eu devo me esconder e esconder meus feitos, foi inventada por quem?

Neste ano, enquanto escrevia um capítulo de um livro sobre feminismos, pedi para algumas mulheres negras me mandarem seus currículos. Fui percebendo que eu estava completando a maioria das pequenas biografias e currículos, pois a maioria não escreveu tudo o que fez, não por preguiça, mas por querer esconder seus feitos.

Por que fazemos isso com nós mesmas?
Quem definiu que eu devo amenizar minhas vitórias para não te ofender?

Lamento, mas eu me recuso. Seguindo os ensinamentos de Chimamanda Ngozi Adichie em seu livro-manifesto Para Educar Crianças Feministas, me recuso a ser julgada por não me curvar:

“Nosso mundo está cheio de homens e mulheres que não gostam de mulheres PODEROSAS. Estamos tão condicionados a pensar o poder como uma coisa MASCULINA que uma mulher poderosa é uma aberração. Por isso, ela é POLICIADA. No caso de mulheres poderosas, perguntamos: ela tem HUMILDADE? Sorri? Mostra GRATIDÃO? Tem um lado doméstico? Perguntas que não fazemos a homens poderosos, o que demonstra que nosso desconforto não é com o poder em si, mas com a mulher. JULGAMOS AS PODEROSAS COM MAIS RIGOR DO QUE OS PODEROSOS.”

Não posso ser humilde, mesmo que isso te incomode. Não serei humilde numa sociedade que ainda me coloca no lugar de vítima pois é racista. O Brasil me deu limões por ser um fruto amargo, eu fiz uma limonada e agora me cobram que eu agradeça?  O meu lugar é o da construção de uma humildade longe dos moldes perversos da disparidade de gênero e raça, uma humildade que reconheça que eu sou uma pessoa e que dificilmente eu receberia os mesmos adjetivos e até conselhos caso fosse um homem branco. Vocês chamam homens de arrogantes como chamam mulheres? Vocês dão conselhos para ser humilde para homens como dão aos negros?

Vocês pedem que homens brancos que são maioria em cargos de poder e que já nasceram em famílias estruturadas escondam seus currículos, finjam que não sabem algo, não deem a opinião deles, não sejam lideranças, não se destaquem em cargos de poder, comam abóboras mesmo quando não gostam de abóboras?

O número de mulheres e negros que se auto boicotam acreditando que são impostores por estarem num lugar de conforto, sucesso e reconhecimento é absurdo.  A humildade que dizem ser elogio para mulheres diz algo como: “Ei, que bom que você sabe que não é TUDO isso”. Para homens, em especial brancos, cobra-se “ambição”, não “humildade”. Para ser negra e taxada de arrogante não é preciso muita coisa, basta dar sua opinião e dizer que você tem gostos, desejos, sonhos que as pessoas já te adjetivam como alguém que “não se enxerga”. Uma pessoa que “não se coloca no seu lugar”. Eu me nego a estar no lugar que colocaram a maioria dos negros, um lugar de apagamento, silenciamento e invisibilidade. Um lugar que a gente não escolheu, que a gente pode até ter ressignificado, contudo, não foi uma escolha. Nós fomos (literalmente) jogados às margens, sendo tratados como ignorantes e incapazes. Eu digo NÃO para isso e assim digo SIM para mim mesma. Formulo um ideal de humildade que foge de parâmetros cristãos de subserviência, e passo a entender que ser humilde não é sobre fingir que eu não posso, que eu não quero, mas, sim, respeitar meus limites e os dos outros, entendendo que quem me respeita é quem não retira o meu direito de ser como sou e como quero.

Pego emprestada as palavras de Frantz Fanon: “Sou dádiva que recomendam a humildade dos enfermos.”

Como ensinou a poeta e escritora norte-americana Maya Angelou:

“(…)

Você quer me ver quebrada?
De olhos e cabeça baixos?
Ombros caídos como lágrimas,
Enfraquecida pelos gritos repletos da minha alma?

A minha arrogância te ofende?
Não leve isso tão a sério.
Porque eu rio como se tivesse minas de ouro
Escavadas em meu quintal.

Você pode atirar em mim com suas palavras,
Você pode me cortar com seus olhos,
Você pode me matar com seu ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu me ergo.
(…)
Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me ergo
Em um amanhecer que é assombrosamente claro
Eu me ergo
Trazendo os presentes que meus antepassados ​​ofereceram,
Eu sou o sonho e a esperança do escravo.
Eu me ergo
Eu me ergo
Eu me ergo.”

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