Por Rafael Tomyama*

Afeito à técnica de protagonizar polêmicas de forma a manter-se em evidência no cenário político, a mais recente de Ciro Gomes foi a de criticar Tasso Jereissati, atual presidente nacional do PSDB. A declaração em que o presidenciável acusa o senador tucano de “traição” por manter indicações de correligionários tanto nos governos estadual e federal foi feita na quinta-feira passada, 12/10, na convenção da seção cearense do PDT – sua sétima legenda partidária.

Presente também ao evento, o governador petista Camilo Santana está no epicentro das tensões políticas que envolvem o processo sucessório no ano que vem, no estado natal de figuras públicas de projeção nacional, como o também cearense Eunício Oliveira (PMDB), atual presidente do Senado Federal. O ataque do dirigente do clã Ferreira Gomes se dá em meio a notícias de entendimentos entre o governador e o campo oposicionista e outras que dão conta da recomposição deste bloco em torno do nome de Tasso para a disputa do governo do Ceará.

Incertezas

Não é de hoje que o governador Camilo, que sucedeu ao irmão Cid Gomes com seu apoio direto e de seu grupo político, tem emitido sinais incertos em sua movimentação política. Camilo, juntamente com o PDT dos Gomes, operou para garantir votos da bancada federal contra o impeachment da presidenta Dilma. Consumado o golpe, entretanto, o governador adotou um tom mais comedido e esteve inclusive algumas vezes em Brasília tratando com os golpistas de demandas e questões administrativas de governo.

Ao longo do primeiro semestre deste ano, no contexto da caçada judicial a Lula e da criminalização do PT e dos movimentos sociais, Camilo deu seguidas declarações de desinteresse quanto à candidatura do ex-presidente, defendendo uma chapa com Ciro e Haddad e manteve em suspenso sua definição quanto à sua permanência no PT, decisão a ser tomada no momento oportuno com o “seu” grupo político (os Gomes).

Além disso, o governador convidou o tucano e ex-vice-governador tucano Maia Júnior para assumir a poderosa pasta da Secretaria do Planejamento e Gestão. Mais do que um cargo formal, constitui-se numa espécie de “gerentão” e tocador de projetos estratégicos do governo. Mais do que um tucano qualquer, um nome super identificado com Tasso e que, inclusive, pediu seu aval para integrar a gestão do governo a qual se opõe o senador. Daí ser o pivô da citada cobrança de Ciro.

A situação esteve tão insustentável que em junho um grupo de lideranças petistas chegou a lançar uma carta cobrando um posicionamento do governador e do diretório estadual do partido. Entre os signatários o vereador de Fortaleza Guilherme Sampaio e a deputada federal Luizianne Lins. A reação do governador foi a de procurar interlocução com o partido por meio de uma reunião com a bancada petista na Assembleia – nenhum deles havia assinado a carta.

Pragmatismo

Camilo se revela adepto do modelo de acomodações políticas, praticado desde Tasso, que do “Governo das Mudanças” acabou incorporando os velhos “coronéis” que havia derrotado inicialmente e também pelos Ferreira Gomes, Ciro e depois Cid, que em seus governos foram contemplando uma-a-uma os próceres fisiológicos locais em todas as regiões do estado. Camilo viu a oposição na Assembleia Legislativa definhar diante da força da máquina, especialmente depois da queda de braço que levou à extinção do Tribunal de Contas dos Municípios.

Camilo é filho de Eudoro Santana. Eudoro foi deputado estadual e diretor-geral do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – Dnocs. Com perfil político ligado à esquerda, seu nome foi sempre associado ao PSB até o ingresso dos Gomes na legenda, quando se retirou em protesto e veio se filiar ao PT algum tempo depois. E por conta dessas voltas que o mundo dá, voltou às boas com a oligarquia sobralense pelas mãos do prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, que ajudou a eleger derrotando o candidato petista Elmano de Freitas, na sucessão de Luizianne Lins, em 2012.

Já Camilo, que é filiado petista mas anda sempre descolado da linha partidária, foi escolhido candidato num acordo político com os Gomes nos últimos minutos do prazo eleitoral para definição da coligação em convenção, e diz não ver problema algum em atrair certos setores da oposição, especialmente o senador Tasso. Alega que Meirelles foi ministro de Lula. Dirigentes petistas reagiram a este raciocínio, analisando que há outro contexto radicalmente diferente: os tucanos são uns dos principais artífices do golpe e Tasso é liderança destacada dessa movimentação que entrega as riquezas do país ao estrangeiro e desmonta os direitos dos trabalhadores.

Lula 2018

Na ocasião da vinda de Lula ao Ceará no final de agosto, no entanto, a coisa parecia ter ganho algum alento. A caravana foi antecedida da vinda da própria presidenta do PT, Gleisi Hoffman, à posse do diretório estadual e pela ida do governador a São Paulo para conversa com Lula. Diferentemente dos Gomes que se ausentaram completamente, Camilo fez questão de acompanhar o líder cada vez mais crescente das pesquisas de intenção de voto em sua fenomenal passagem por todo o estado.

Ocorre que em estados vizinhos como Alagoas, Paraíba, Piauí e Sergipe, os eventos com Lula foram acompanhados pelas lideranças oligárquicas e golpistas locais, em mais ou menos francas articulações visando possíveis acordos eleitorais em 2018. O que não deve ocorrer na Bahia, Maranhão e Pernambuco.

A linha do “grande entendimento” – repetida por quem parece que nada aprendeu com o golpe – animou intensas e insistentes notícias – não desmentidas – sobre costuras nos bastidores entre Camilo e Eunício. O combustível da reconstrução da aliança – da qual o senador peemedebista já fez parte antes da ruptura para se candidatar contra Camilo em 2014 – seria de um lado o interesse da situação de mitigar a disputa eleitoral e de outro o interesse de Eunício em ser reconduzido ao Senado.

Objeções

Mas o acordo pragmático veio a encontrar dois obstáculos que impedem a sua consumação. Nenhum deles parte de ua concepção programática ou ideológica de quem diz professar uma linha política de esquerda.

Nas últimas duas semanas tem se falado na movimentação articulada pelo deputado federal Genecias (Solidariedade) e lideranças associadas ao PSC de Kassab, como o presidente desalojado do TCM, Domingos Filho, para que Tasso encabece o bloco da oposição, que deve incluir também gente do PR como o deputado Capitão Wagner e o ex-governador Lúcio Alcântara e até do PSB, como o ex-prefeito de Maracanaú, Roberto Pessoa.

Além disso, a fala dura de Ciro – que se desdobra em mais alguns outros, digamos, constrangimentos. O quadro da disputa nacional, em que Ciro segue se mantendo como candidato a presidente, mesmo contra Lula – cuja candidatura chama de “um desserviço ao país” – ou talvez apostando em sua inviabilização, traz as contradições deste embate para o plano local, uma vez que ambos em tese deverão apoiar o mesmo candidato a governador.

Nestas circunstâncias, mesmo já contando com o favoritismo do governador, os cenários ainda indefinidos em nível nacional e local parecem interpor sérios obstáculos à velha política de “acomodações” com os setores mais retrógrados e clientelistas das classes dominantes. Nada que a objetividade pragmática não se empenhe em contornar. E tudo que a autêntica esquerda petista não irá desistir de combater.

*Rafael Tomyama é militante do PT em Fortaleza-CE.

Deixe uma resposta

Fechar Menu