Por Laura Paz

A Primavera Secundarista de 2015/2016 nos mostrou que existe potencial de mobilização no movimento estudantil secundarista. As ocupações reanimaram uma categoria que já fora, em outros momentos, importante na resistência aos ataques do capital e, hoje, tem tentado retomar este papel.

É verdade que o processo de ocupações contribuiu para que as entidades estudantis tivessem mais presença nas escolas e universidades. Entretanto, é também verdade que as ocupações apontaram um acirramento da disputa política e ideológica e mostraram o resultado prático da crise de legitimidade pela qual passam estas mesmas entidades.

Não foram poucos os episódios em que nossas bandeiras históricas foram queimadas ou impedidas de entrar em ocupações. O crescimento do “autonomismo” nas escolas é também uma das consequências da política adotada pela União Brasileira de Estudantes Secundaristas nos últimos anos.

A política e os métodos do Campo Majoritário, em especial da União da Juventude Socialista (UJS-PCdoB), mantém a entidade refém de uma estrutura anacrônica, verticalizada, centralizada e burocrática, reflexo de uma direção imobilista e antidemocrática. Somado a isso, há o fato de que a hegemonia da UJS na UBES é ainda maior do que na UNE. Portanto, é ainda mais forte a predominância da meta de manutenção do aparelho acima da mobilização estudantil. A UBES nunca possuiu uma alternativa política e de direção para a entidade como o Campo Popular, na União Nacional de Estudantes. E, após a retumbante vitória do PCdoB no 55º CONUNE, com a cooptação de um setor que antes lhe fazia oposição, a expectativa de construção de uma alternativa concreta como esta, na UBES, se reduz ainda mais.

É fácil notar a associação equivocada que se faz entre o aparelhamento destas entidades e a atuação de militantes partidários nelas. A negação das entidades enquanto instrumentos legítimos de organização estudantil que vem neste sentido é típica de quem parece conceber o movimento estudantil como algo desconectado da realidade política como um todo. O crescimento do discurso do apartidarismo no movimento estudantil está forjado através de uma política rasa e de uma lógica ingênua, e o objetivo único desta tática da direita e equivocadamente adotada também por setores da esquerda é fragmentar a base e causar um esvaziamento político nos nossos espaços.

Por estas e outras, a Primavera Secundarista não produziu o saldo que a conjuntura demanda no que diz respeito à mobilização permanente das e dos estudantes. E a UBES, por sua vez, não deu conta de manter entre as nossas trincheiras as e os ocupantes de escolas, muitos dos quais tiveram, neste processo, seu primeiro contato com o movimento estudantil organizado.

Além disso, o momento em que ocorre o 42º Congresso da UBES, marcado para 29 de novembro a 02 de dezembro deste ano, em Goiânia, exige que sejamos capazes de realizar uma mudança estrutural na política encaminhada pela entidade. E esta mudança deve estar orientada pela defesa das conquistas na educação do último período e a construção de um programa democrático e popular para o Brasil e para a educação. Precisamos que a UBES retome a capacidade de diálogo, organização e direção das e dos estudantes.

Mais do que nunca, é preciso que a UBES volte a ser referência de rebeldia e resistência. Devemos dizer em alto e bom som para todos aqueles que buscam podar nosso futuro que rebeldia não se ajusta! E que nossa luta é o resgate da rebeldia consequente das e dos estudantes que tomaram a vanguarda da resistência à ditadura militar, é o resgate da rebeldia das e dos secundaristas chilenos que ocuparam suas escolas em 2006 contra as heranças da ditadura militar de Pinochet na educação. Rebeldia é organizar a raiva, a indignação e a luta por um mundo mais justo. E, para isso, devemos retomar o papel histórico da União Brasileira de Estudantes Secundaristas. Cada vez torna-se mais imprescindível que a UBES opte pelas boas brigas invés dos maus acordos. Por isso, é preciso ocupar e reconquistar a UBES para a luta e para as e os estudantes!

 

Laura Paz é diretora de movimentos sociais da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes)

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