Um dia de mobilização, agora nas redes, contra as políticas fascistas e genocidas que Jair Bolsonaro, seu clã e seu governo têm proposto para o país.  A educação, que deveria ser um direito do povo e um dever do poder público, passa cada vez mais ao largo da maioria da classe trabalhadora.

Por Roberto Nery (*)

Exatamente um ano atrás, neste mesmo 15 de maio, centenas de milhares saíram às ruas para protestar contra as políticas e contra o governo Bolsonaro. Uma manifestação convocada inicialmente pela educação, como data de greve nacional contra a reforma da previdência, que demonstrou ainda mais força após a fala de Abraham Weintraub, ameaçando as universidades que promoviam “balburdia”, e o posterior corte no orçamento de mais de 30% na educação superior pública.

Muito aconteceu nesse ano que passou, porém, nem de perto houve um recuo nas pautas do governo. Como já é conhecido por todas e todos, esse governo genocida pouco se importa com a vida das e dos brasileiros. Estamos no meio de uma pandemia, porém dia após dia vemos descabidas declarações sobre uma “gripezinha” que já ceifou a vida de mais de 14 mil no nosso país – considerando os dados disponibilizados, sem contar toda a subnotificação. “E daí?”, disse o presidente quando questionado. Porque imaginaríamos que na educação haveria alguma melhora, se não existe preocupação nem mesmo com a vida?

Durante uma crise mundial e que impacta centenas de cidades – com mais de 70% das regiões brasileiras já com casos confirmados¹, o governo iniciou as inscrições para o ENEM 2020, avaliação que deveria ser portal de acesso para milhares de estudantes para um ensino superior público, gratuito e de qualidade.

Deveria, ao menos. Infelizmente, não temos uma educação universal garantida no país, milhões nunca terão a oportunidade de ingressar a faculdade, na busca por uma educação libertadora e um futuro melhor. Apesar dos investimentos massivos dos governos petistas na busca de garantir um direito garantido pela Constituição Federal de 1988, várias universidades sendo abertas, vagas praticamente dobrando, com muitas filhas e filhos da classe trabalhadora tendo esse direito assegurado, ainda estamos longe de ser para todos, com menos de 20% dos jovens frequentando o ensino superior².

Mesmo antes do atual governo, o ENEM já era extremamente dispare: segundo pesquisa realizada pelo mestre em setor público pela UNB, Leonardo Sales, o peso dos fatores socioeconômicos é de até 85% no resultado do ENEM. Assim, a chance de uma ou um aluno em condições desfavoráveis é de apenas 1 em 600 de estar entre as 5% melhores notas³. E agora, com espírito de “competição” que norteia o Ministro da Educação⁴ em suas políticas públicas, esse índice tende a ainda piorar.

A própria decisão de não adiar o ENEM, mesmo durante uma pandemia em que as escolas no país estão fechadas, é talvez o exemplo da ignorância do governo frente as diferentes condições das e dos estudantes. Apesar de o ministro ter dito que ficou “mais difícil para todo mundo”⁵, sabemos o quanto esse argumento está distante da realidade. Como comparar a dificuldade daquele que tem tido a oportunidade de fazer cursinho particular online com metodologia planejada de ensino à distância com outro que não tinha professores mesmo para aulas presenciais no ensino público?

Nos dados, a verdade. A pesquisa sobre o uso de tecnologias e da comunicação – realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação – mostrou que em 2018, apenas 9% das famílias das classes D e E possuíam computador em casa, enquanto na classe A, 98%. Já em relação aos telefones celulares que permitem acesso à internet, apenas 40% das classes mais baixas estavam conectadas, enquanto o percentual era de 99% na mais alta⁶.

O resultado será desastroso. Enquanto o governo federal enxerga a pandemia como “oportunidade de negócios” para implementação do ensino à distância na educação básica e superior, além de restringir o acesso à educação para a classe trabalhadora, as e os estudantes se veem pressionados contra a parede na busca de um futuro melhor para si e suas famílias.

Como dito na resolução “Educação em tempos de pandemia”, divulgada aqui pelo Página13⁷, o plano neoliberal se aprofundou durante a pandemia: “Primeiro, enxergam na educação pública em geral, e nos trabalhadores da educação em particular, um inimigo político e ideológico a ser abatido. Segundo, enxergam na educação pública um filão a ser privatizado e entregue ao “mercado”. Terceiro, no Brasil que eles desejam construir, não é necessário educar a classe trabalhadora, basta adestrar a mão de obra; logo, o setor público de educação pode e deve ser reduzido ao mínimo.”

Nesse 15 de maio, precisamos nos posicionar claramente pelo adiamento do Ensino Nacional do Ensino Médio até garantir que o conteúdo programático seja integralmente aplicado. Também, precisamos reafirmar em alto e bom tom a necessidade de botar fim às políticas neoliberais genocidas e ao governo Bolsonaro, pela manutenção de direitos básicos como a vida e a educação!

Fora Bolsonaro, Mourão, seus governos e suas políticas!

Fora Weintraub, Paulo Guedes e toda corja golpista!

#AdiaENEM!

(*) Roberto Nery é graduando em Ciências do Estado na UFMG e militante do Partido dos Trabalhadores, atualmente na Secretaria Estadual da JPTMG. roberto.nery.pereira@gmail.com – instagram: robertonery13

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1 Matéria da Money Times sobre a pesquisa da Fiocruz. 14 de maio de 2020. https://www.moneytimes.com.br/pesquisa-da-fiocruz-indica-avanco-da-covid-19-em-cidades-do-interior/

2 Dados do IPEA 2008 – PNAD Contínua. Visitado em 14 de maio de 2020. https://www.mundovestibular.com.br/vestibular/noticias/jovens-estudam-mais-mas-poucos-chegam-a-universidade

3 Pesquisa sobre os reflexos da desigualdade socioeconômica na nota do ENEM. Visitado em 14 de maio de 2020. https://exame.abril.com.br/brasil/no-enem-1-a-cada-600-alunos-pobres-conseguem-estar-entre-os-melhores/

4 Declaração de Abraham Weintraub. Visitado em 14 de maio de 2020. https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/o-enem-uma-competicao-ficou-mais-dificil-para-todo-mundo-afirma-weintraub-mantendo-datas-do-enem-24379581

5 Idem

6 Os efeitos da pandemia no ensino médio e na realização do Enem. Visitado em 14 de maio de 2020. https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/04/28/Os-efeitos-da-pandemia-no-ensino-m%C3%A9dio-e-na-realiza%C3%A7%C3%A3o-do-Enem

7 Educação em tempos de pandemia. Visitado em 13 de maio de 2020. https://www.pagina13.org.br/educacao-em-tempos-de-pandemia/

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